22.6.13

Reflexão sobre o posicionamento da Presidenta Dilma de 21/06/2013

Acabei de ouvir o pronunciamento da Dilma. Galera, acho importante escutarmos o que ela tem a dizer e não focarmos no que gostaríamos que ela falasse ou prometesse, pois, se agirmos dessa forma, estaremos praticando audição seletiva e o turbilhão de críticas será maior que o de cobranças.

Tenho muitas críticas pessoais ao processo como vem sendo tratada a questão da saúde no Brasil, porém aqui só vou realçar itens importantes na fala da presidenta e que acredito que devamos cobrar. Sei que muitos itens ainda estão longe dos nossos ideias, mas precisamos começar de algum lugar se não poderemos nos tornar somente um movimento reclamão. Lembro que devemos reclamar e reivindicar, mas não só!

A primeira coisa a realçar foi o apoio dela às manifestações. Reforço o que já falei com alguns amigos, construir um movimento pela violência não é o caminho, principalmente quando a violência incide fortemente na depredação de bens públicos, bens este que eu, você, nossos familiares, todos usam.

Foi citada pela presidenta a revogação no aumento das passagens! Muito bem, mas que esse dinheiro não seja retirado dos demais segmentos, como a saúde e a educação.

O que ela disse e acredito que devemos cobrar, não só da Dilma, mas também do SENADO!

- Ampliar as estratégias de combate à corrupção e de desvio dos recursos públicos;

- Elaboração de um plano nacional de mobilidade urbana, privilegiando o transporte coletivo;

- Destinação de 100% dos royalties do petróleo para a educação;

- Trazer milhares de médicos do exterior para ampliar o atendimento do SUS;
- Criar instituições públicas mais transparentes;

- Viabilizar uma reforma política que inclua a participação popular;

- Ampliar a lei de acesso à informação a todos os poderes da República, fiscalizando o uso correto do dinheiro público.

- Cobrar que o dinheiro que foi utilizado para financiar os estádios da Copa retorne.

Dessa vez não quero me estender, mas só terminar com algumas críticas que penso serem importantes. Ao final do pronunciamento, a presidenta reforçou que saúde e educação são prioridades, portanto que sejam tratadas como tal, importar médicos estrangeiros pode ser uma solução que está surgindo, porém não resolverá os graves problemas do nosso Sistema Único de Saúde, mesmo com a importação de médicos, continuaremos com um sistema de saúde subfinanciado e com graves problemas de gestão. O médico sozinho não será o profissional que vai mudar a realidade do sistema, as condições de trabalho são ruins para todos. Não quero ficar comprando brigas corporativas, quero apostar em soluções que modifiquem a realidade da saúde em nosso país e, no momento, precisamos de mais médicos SIM! Porém, isso não pode ser encarado como um plano de organização da saúde em nosso país.

Por fim, vale destacar que vivemos em um federalismo com três unidades da federação autônomas. Tirar o presidente não significa a solução dos problemas do país. Tirar para colocar quem?! Vamos chamar eleições representativas e democráticas novamente?! O povo participará dessa escolha?! Devemos entender como funciona o nosso modelo de organização política antes de ficarmos repetindo um discurso que me aprece vir mais da alta burguesia. 

21.6.13

Relato sobre as Manifestações no Rio de Janeiro

Ao chegar ontem a noite em casa, feliz, perplexa e preocupada com os amigos que ainda estavam nas ruas do centro do Rio, fiquei bastante pensativa e me questionando se externalizava ou não minhas emoções... Por fim, resolvi escrever e acabei escrevendo muito.

Primeiramente queria reforçar que pensei que nunca iria vivenciar um movimento popular com tanta força. Pensei que nunca fosse ver diferentes movimentos caminhando juntos em um movimento com causas meio embaçadas e plurais. Movimentos que mostraram ter em comum a insatisfação com o descaso como vem sendo tratada a coisa pública. Movimentos que encontraram nos R$ 0,20, como diriam os sociólogos, um fato que provocou indignação, levando a uma cascata de informações e pedidos. Sem dúvida, R$ 0,20 se tornou um símbolo das demais injustiças sociais.



Na verdade, as pessoas já estão insatisfeitas há muito tempo. Apesar dos distintos grupos construírem suas pautas separadamente, nós, enquanto cidadãos, dialogamos sobre tudo isso, o tempo todo, seja pela internet, nos ônibus, no metro e etc. Ontem, 20/06, vimos todas essas reivindicações juntas e misturadas. Infelizmente, junto a este movimento, também estava presente o movimento de vandalismo que, como não é novidade, sempre se aproveita dessas situações para poder marcar presença e ganhar o gosto da mídia. Mais infelizmente ainda, temos uma policia que é treinada para “dar porrada” em bandido e que, em qualquer sinal de vandalismo, cai pra cima de todos, provocando um caos inicial que, consequentemente, leva a um caos coletivo (saques, assaltos, depredações...). Destaco que por volta das 16h eu estava passando pela cidade nova a caminho do Largo de São Francisco para encontrar amigos e organizar as pautas da saúde a serem defendidas na manifestação, o cerco policial que se preparava e que blindava o prédio da prefeitura era crescente. E nesse crescente embate com a polícia, uma pergunta que vem ecoando é: Como está caminhando a segurança pública para as grandes manifestações?... Parece que vem caminhado aos moldes de períodos antigos...

Durante a passeata, consegui chegar até a altura do Hospital São Francisco, próximo a Nova CEDAE, sem nenhuma tentativa de violência generalizada. Nesse mesmo momento, o pessoal da linha de frente chegou à prefeitura e iniciou-se a confusão. Fico me questionando como que um movimento que caminhou tanto, sem nenhuma violência generalizada, ao chegar à porta da prefeitura e encontrar a polícia, de repente se perde e, iniciam-se tiros, bombas e correria. Certamente ocorreu ali uma tentativa de dispersar o movimento. Incitar uma violência assim que o primeiro grupo chegou prefeitura pra mim foi uma forma clara de quebrar o movimento e dispersar a multidão. Ressalto que no decorrer da marcha, antes de se chegar à prefeitura, atos de vandalismo eram reprimidos pelo público. Como já dizia, se gentileza gera gentileza, violência gera violência.

Acho que todo movimento que se propõem a ser revolucionário quando ocorre, as pessoas realmente devem se sentir perdidas, pensando o que estão fazendo, se devem ou não participar das mobilizações, inclusive, me incluo nesses momentos de crises interiores... Devemos lembrar que os livros de história já nos mostram as histórias dos movimentos organizadas, analisadas e cronologicamente feitas. Somos treinados, desde o jardim de infância, a analisar, categorizar e esquematizar, porém, quando nos vemos no olho do furacão e tão próximo do objeto de análise fica muito difícil fazer isso. Para os meus colegas da Saúde Coletiva, fica muito difícil colocar isso em uma tabela 2x2, porque a vida não é 2x2!

Nos movimentos tradicionais que estudamos víamos rostos puxando o movimento, digamos líderes carismáticos tradicionais. Pelo que vivenciei, percebi que não temos um líder carismático único, mas isso não significa que não tenhamos uma liderança, temos, digamos, uma liderança coletiva que precisa ser melhor estudada. Além disso, não é porque não temos um líder único que isso signifique que não estejamos pautando uma organização. Todos os segmentos presentes pensaram, minimamente, em uma bandeira para levantar. Para todos os lados que olhava, no decorrer da caminhada, via diferentes reivindicações. Pode até ser caracterizado como um movimento sem liderança concreta única, mas não penso que sem propostas, o que mais vi e ouvi foram propostas, não novas, mas antigas. Deve-se observar também que não se trata de uma criação brasileira, manifestações com esse estilo, estão acontecendo em várias partes do mundo.

Antes mesmo de postar esse texto olhei o que alguns colegas escreveram e teve um tipo de fala que me irritou bastante, principalmente aqueles que contabilizam o movimento: 50% era isso, 30% aquilo, 20% acolá... Provavelmente fizeram um inquérito na velocidade da luz para tal cálculo. E o melhor é que tais pessoas se enquadram na porcentagem da minoria pensante que é a luz da LUZ, tendo uma puta capacidade de se afastar do objeto e fazer uma análise do estado da arte. Sinceramente, não consigo me incluir nessa minoria da Luz, primeiro porque não sei nem direito por onde começar uma análise para fatos que vem acontecendo, segundo porque os meus discursos se confundem na minha própria mente, dessa forma, prefiro me colocar nos meus simples “achismos” dos fatos.

Outro ponto que não se pode deixar de mencionar é a utilização do Facebook e demais redes sociais para a mobilização e construção de uma agenda, mesmo que difusa. Com certeza a internet teve uma capacidade muito grande de aglutinar diferentes grupos, não só no Rio, ou no Brasil, mas também no mundo, com pequenas mobilizações de brasileiros residentes em outros países que concordam com a causa, melhor, com as causas. E, nessa onda da internet, também são crescentes as postagens das pessoas falando daquelas pessoas que só querem tirar fotos na manifestação para publicar em seu Facebook e Instangran. Sinceramente, também acho que é uma parada bizarra, mas é o que vem junto com o bolo da facilidade da comunicação virtual, as pessoas querem externalizar na internet a sua participação, seja para postar fotos legais com seu novo look, ou então sua opinião sobre os fatos. As pessoas querem ser vistas! Se existem aquelas que fazem seus looks para postar no facebook, ora bolas, que também tenham aquelas que façam suas análises e opinões políticas para postar, ao invés de só ficar falando daquelas que postam fotos new styles.

Outra questão: partidários x apartidários. O que começou com uma bandeira de neutralidade nas diversas manifestações, vem culminando com uma briga e pancadaria crescente entre esses dois segmentos e, melhor, a mídia percebendo tal racha, endossa mais ainda essa situação em suas reportagens. Não vamos deixar que os discursos se minimizem entre a briga dos partidários x apartidários. Parece que a mídia focou tanto nesse fato para que o público endossasse a tese de que partidos não podem se expressar. E, antes que pensem que estou defendendo alguma causa especial, não sou de partido nenhum, nem A, nem B, só acho que se realmente queremos caminhar para uma democracia mais forte, devemos saber viver e trabalhar com as possibilidades de representação das diversas entidades, partidárias ou não. Afinal, já está claro que o movimento não tem uma identidade partidária, mas sim uma identidade civil e social.

Por fim, só queria frisar que foi muito emocionante o povo na rua. Contudo, é preciso avançar em nossas reflexões, agora é preciso que os diferentes grupos se falem, dialoguem. Estar presente nas ruas, mostrando as diferentes reivindicações e bandeiras de um povo é muito importante, mas não suficiente. Temos que caminhar para o desenvolvimento do país, mas também para o da representação democrática e do povo. Como disse Cristovam Buarque, uma das maiores surpresas foi as autoridades se surpreenderem com as manifestações. Se surpreenderem com a capacidade das pessoas, em um cenário descrente de uma briga conjunta.


Em coletiva no início dessa tarde, o governador do RJ, Sérgio Cabral, disse que os atos de vandalismo são minoritários no movimento e que estão prejudicando o debate. Retomo sua frase e retorno para ele. Os atos de vandalismo estão prejudicando o debate? Ok, mas, Governador, você mesmo disse que o vandalismo é minoritário, então, vamos parar de dar holofotes e manchetes para os vândalos e vamos iniciar o debate. Vamos lá, porque a pauta é extensa e as mudanças necessárias. Governador, queremos debater ideias, mas também queremos AÇÕES!