OBS 1.: No início do texto menciono “o bebê” ou “a cria”, pois nós
optamos por não saber o sexo durante a gestação. Ninguém sabia. Nem a obstetra.
Somente as médicas que fizeram as ultras.
São 5h da manhã do dia 29 de março, estou com 38 semanas e 5 dias,
levanto cansada e sonolenta. Davi estava terminando de se arrumar para ir
trabalhar, mas, antes, iria me deixar na minha mãe para eu terminar de arrumar
as coisas. Trabalhei até às 17h do dia anterior, mas ainda na cama tinha
sentido uma pequena cólica no pé da barriga. Até aí, tudo bem, dores no final
da gestação é comum, afinal a barriga pesa. No banheiro, ainda de olhos
fechados, fazendo xixi, escuto:
- Bia, acho que o seu tampão saiu, tem sangue na cama – falou Davi.
Rapidamente pego um pedaço de papel higiênico para me limpar e,
realmente, estava sangrando. Penso, como ele, que deve ser o tampão, ainda
tinha aspecto mais de início de menstruação e pouco gelatinoso. Continuamos os
afazeres matinais, ele se arrumando e eu também, afinal, pelos relatos que li
ainda pode demorar alguns dias para o trabalho de parto, só o tampão sair não
significa que já vai nascer. Mas, resolvemos monitorar para ver no que ia dar.
Tomo um banho, me visto, mas começo a sentir novamente as dores no pé da
barriga, vou caminhando pela casa, uso a bola de pilates. Davi avalia que é
melhor chegar mais tarde no trabalho e começa a monitorar o tempo das “tais
dores” que avaliamos que já poderiam ser as contrações. Ainda estavam desreguladas,
eram rápidas, e ainda não tinham padrão. Vontade de fazer xixi toda hora.
Coloco bolsa de água quente para aliviar as dores, ele faz um pouco de
massagem, resolvo deitar, escutando um pouco de música e tirar uma soneca para
ver se melhora. A partir daí as contrações já duram cerca de 30 segundos a 1
minuto, vindo a cada 7 minutos, às vezes 5. Ele pega um material de um curso
que fizemos que indica que isso já pode significar trabalho de parto. Ele não
vai mais para o trabalho. Sendo assim, resolvemos que é melhor eu me alimentar
e ver se isso continua, então ele foi na padaria comprar algo para tomarmos
café. Já eram perto de 7h e resolvemos que, se após as 7h, esse quadro se mantivesse,
ligaríamos para a obstetra.
No tempo que ele foi na padaria, permaneci deitada escutando música e
tentando relaxar, mas a dor começa a aumentar e resolvo ir para o chuveiro
ficar debaixo da água quente. As dores vão ficando mais fortes. Quando ele
chega, já passa das 7h e resolvemos mandar mensagem e ligar para a obstetra:
“Bom dia, Consuelo
É o Davi. Marido da Bianca. A Bianca acordou hoje por volta das 05:00 e notamos
um pequeno sangramento com pequenos coágulos. Depois disso ela começou a ter dores/contrações no
"pé" da barriga, irradiando pra baixo, com inicios e durações bem
intermitentes.O sangramento é bem parecido com início de
menstruação e continua. Não identificamos nada gelatinoso nele.
Quando puder nos dê um retorno.
Abs”
Enquanto estou no chuveiro, ele liga, explica para ela a situação e ela
aconselha a irmos para a emergência para avaliar se já há dilatação e como está
o bebê. Saio do banho, me arrumo, pego as coisas que estavam em casa, tomo
café, preparo um lanche para levar. Na nossa avaliação, eu iria para a emergência
e eles me mandariam de volta para casa, pois não deveria ter dilatação para a
internação. Saímos de casa um pouco antes das 9h, era uma quinta-feira
(quinta-feira santa pré-feriadão de páscoa), engarrafamento enorme, e ainda
passaríamos na minha mãe para deixar o cachorro e pegar as coisas do bebê.
Durante o trajeto as contrações que estavam desreguladas começam a ficar
ritmadas de 5 em 5 minutos. Não aguento ficar sentada e deito o banco do carro.
As dores vêm de um modo que começo a gritar para aliviar um pouco. Chegando na
minha mãe resolvemos que eu não subiria para pegar as coisas do bebê. As dores
estavam fortes, e tinha cerca de 40 degraus para subir. Dado o engarrafamento
era melhor ir direto para o hospital, sem nada do bebê e quase nada meu.
OBS 2.: Ninguém sabia que estava indo para a emergência, resolvemos não
alardear, pois poderia ser alarme falso.
A rua que dava acesso ao hospital estava tendo uma feira-livre, sendo assim,
o caminho aumenta e as contrações também. Entro na emergência e Davi vai
estacionar o carro. Fico andando, pois é melhor que ficar sentada. Passo pela
triagem, em seguida, vou direto para a ginecologia. São 10h, na ginecologia
explicamos a situação, me deito e a médica faz o toque para avaliar.
- 1, 2, 3, 4, 5 e 6. Seis centímetros de dilatação. Arrasou. Vamos
internar. Essa criança vai nascer rapidinho. Você está ótima.
Eu repito dentro de mim. Internar? Seis centímetros? Já? A bolsa ainda
não tinha estourado. Nesse meio tempo já
tinha falado umas três vezes a data da minha última menstruação. A cada
profissional de saúde que me parava tinha que repetir as mesmas coisas sempre.
Davi pergunta se liga para alguém, eu peço que não, ele tem um monte de coisas
para preencher e eu precisava também do apoio dele. Se fizéssemos a primeira
ligação seria uma cascata sem fim de ligações.
A médica da emergência liga para a minha obstetra, explica a situação e
ela vem a caminho. As dores vêm mais intensas, coloco o aparelho para monitorar
o coração do bebê, fico em pé, pois é difícil permanecer deitada. Minha
obstetra chega, 7 centímetros de dilatação. Ainda estou na emergência (do
Pasteur) aguardando a sala do pré parto. A bolsa estoura. Ela diz que o bebê já
está a caminho, e tem um pouco de mecônio do líquido amniótico, mas que é
possível tentar o parto normal. Meu coração acelera, após a bolsa estourar as
dores da contração aumentam, começo a chorar na emergência dizendo que não vou
conseguir que está doendo muito, que não sei se serei capaz. Davi tenta me
acalmar, chega a médica da emergência pede para eu ficar calma e me ajuda a
fazer alguns exercícios circulares e de apoio na cama para os momentos da
contração.
Chego na sala de pré parto. 8 de dilatação. Caminha. Contração. Dor.
Chuveiro. Contração. Bola. Contração. Chega um momento que as pernas começam a
ficar fracas, não consigo mais ficar em pé. As contrações vêm com tudo. Entro na
etapa de analgesia, mas o anestesista está tendo dificuldades para fazer o
procedimento, pois meu corpo fica todo contraído. Não consigo administrar a dor
no corpo. As médicas e o anestesista me auxiliam sobre como fazer força e não desperdiçar
energia. Só gritar não significa que estou ajudando o bebê no trajeto. Davi fica
do lado segurando minha mão e falando palavras de apoio. Começo a respirar,
rezar, tentar me concentrar. Analgesia chega, as dores aliviam um pouco. Ainda
sinto minhas pernas e uma forte pressão no cóccix. É a cria chegando. Uma
contração: “Faz força como se fosse para fazer cocô”. Segunda contração: Força!
Respiro e deixo meu corpo ir.
São 11:56. Nasceu. É uma menina. É Sofia. O choro demora um pouco e vem
um leve “unhe”. Colocam ela no meu colo. Um olhinho aberto e outro fechado. Ela
fica quietinha perto do peito, lambendo o bico. Eu choro. Davi chora. Sofia
chora. Projeto o olhinho dela por conta da luz.
Estamos sem celular, sem câmera, sem nada. O anestesista tira as fotos
para a gente e depois envia pelo whatsapp.
Sofia chegou com 48 cm e 3,585kg em um feriadão de Páscoa. Nem eu e nem
ela tínhamos roupa para vestir após o parto. Mas tínhamos muito amor e carinho
para nos manter: eu, Sofia e Davi.
Os dias têm sido cansativos, com pouco sono, muitas mamadas, cagadas e
choros. Também bate uma tristeza. Chorei achando que não dou conta, mesmo tendo
o Davi e a minha mãe juntos. Tem sido também uma gostosura. A gente se vê
fazendo um monte se babaquice. Também dá medo, muito medo de ver um serzinho
desse depender exclusivamente de você. Tem sido uma experiência completamente
diferente. Noites não dormidas. Mas quando Sofia abre um sorrisinho ou uma cara
emburrada, até esqueço [esquecemos] o que é sono.
