29.4.18

Relato de Parto - Bianca e Davi



OBS 1.: No início do texto menciono “o bebê” ou “a cria”, pois nós optamos por não saber o sexo durante a gestação. Ninguém sabia. Nem a obstetra. Somente as médicas que fizeram as ultras.

São 5h da manhã do dia 29 de março, estou com 38 semanas e 5 dias, levanto cansada e sonolenta. Davi estava terminando de se arrumar para ir trabalhar, mas, antes, iria me deixar na minha mãe para eu terminar de arrumar as coisas. Trabalhei até às 17h do dia anterior, mas ainda na cama tinha sentido uma pequena cólica no pé da barriga. Até aí, tudo bem, dores no final da gestação é comum, afinal a barriga pesa. No banheiro, ainda de olhos fechados, fazendo xixi, escuto:

- Bia, acho que o seu tampão saiu, tem sangue na cama – falou Davi.

Rapidamente pego um pedaço de papel higiênico para me limpar e, realmente, estava sangrando. Penso, como ele, que deve ser o tampão, ainda tinha aspecto mais de início de menstruação e pouco gelatinoso. Continuamos os afazeres matinais, ele se arrumando e eu também, afinal, pelos relatos que li ainda pode demorar alguns dias para o trabalho de parto, só o tampão sair não significa que já vai nascer. Mas, resolvemos monitorar para ver no que ia dar. Tomo um banho, me visto, mas começo a sentir novamente as dores no pé da barriga, vou caminhando pela casa, uso a bola de pilates. Davi avalia que é melhor chegar mais tarde no trabalho e começa a monitorar o tempo das “tais dores” que avaliamos que já poderiam ser as contrações. Ainda estavam desreguladas, eram rápidas, e ainda não tinham padrão. Vontade de fazer xixi toda hora. Coloco bolsa de água quente para aliviar as dores, ele faz um pouco de massagem, resolvo deitar, escutando um pouco de música e tirar uma soneca para ver se melhora. A partir daí as contrações já duram cerca de 30 segundos a 1 minuto, vindo a cada 7 minutos, às vezes 5. Ele pega um material de um curso que fizemos que indica que isso já pode significar trabalho de parto. Ele não vai mais para o trabalho. Sendo assim, resolvemos que é melhor eu me alimentar e ver se isso continua, então ele foi na padaria comprar algo para tomarmos café. Já eram perto de 7h e resolvemos que, se após as 7h, esse quadro se mantivesse, ligaríamos para a obstetra.

No tempo que ele foi na padaria, permaneci deitada escutando música e tentando relaxar, mas a dor começa a aumentar e resolvo ir para o chuveiro ficar debaixo da água quente. As dores vão ficando mais fortes. Quando ele chega, já passa das 7h e resolvemos mandar mensagem e ligar para a obstetra:

“Bom dia, Consuelo

É o Davi. Marido da Bianca. A Bianca acordou hoje por volta das 05:00 e notamos um pequeno sangramento com pequenos coágulos.  Depois disso ela começou a ter dores/contrações no "pé" da barriga, irradiando pra baixo, com inicios e durações bem intermitentes.O sangramento é bem parecido com início de menstruação e continua. Não identificamos nada gelatinoso nele.

Quando puder nos dê um retorno.

Abs”

Enquanto estou no chuveiro, ele liga, explica para ela a situação e ela aconselha a irmos para a emergência para avaliar se já há dilatação e como está o bebê. Saio do banho, me arrumo, pego as coisas que estavam em casa, tomo café, preparo um lanche para levar. Na nossa avaliação, eu iria para a emergência e eles me mandariam de volta para casa, pois não deveria ter dilatação para a internação. Saímos de casa um pouco antes das 9h, era uma quinta-feira (quinta-feira santa pré-feriadão de páscoa), engarrafamento enorme, e ainda passaríamos na minha mãe para deixar o cachorro e pegar as coisas do bebê. Durante o trajeto as contrações que estavam desreguladas começam a ficar ritmadas de 5 em 5 minutos. Não aguento ficar sentada e deito o banco do carro. As dores vêm de um modo que começo a gritar para aliviar um pouco. Chegando na minha mãe resolvemos que eu não subiria para pegar as coisas do bebê. As dores estavam fortes, e tinha cerca de 40 degraus para subir. Dado o engarrafamento era melhor ir direto para o hospital, sem nada do bebê e quase nada meu.

OBS 2.: Ninguém sabia que estava indo para a emergência, resolvemos não alardear, pois poderia ser alarme falso.

A rua que dava acesso ao hospital estava tendo uma feira-livre, sendo assim, o caminho aumenta e as contrações também. Entro na emergência e Davi vai estacionar o carro. Fico andando, pois é melhor que ficar sentada. Passo pela triagem, em seguida, vou direto para a ginecologia. São 10h, na ginecologia explicamos a situação, me deito e a médica faz o toque para avaliar.

- 1, 2, 3, 4, 5 e 6. Seis centímetros de dilatação. Arrasou. Vamos internar. Essa criança vai nascer rapidinho. Você está ótima.

Eu repito dentro de mim. Internar? Seis centímetros? Já? A bolsa ainda não tinha estourado.  Nesse meio tempo já tinha falado umas três vezes a data da minha última menstruação. A cada profissional de saúde que me parava tinha que repetir as mesmas coisas sempre. Davi pergunta se liga para alguém, eu peço que não, ele tem um monte de coisas para preencher e eu precisava também do apoio dele. Se fizéssemos a primeira ligação seria uma cascata sem fim de ligações.

A médica da emergência liga para a minha obstetra, explica a situação e ela vem a caminho. As dores vêm mais intensas, coloco o aparelho para monitorar o coração do bebê, fico em pé, pois é difícil permanecer deitada. Minha obstetra chega, 7 centímetros de dilatação. Ainda estou na emergência (do Pasteur) aguardando a sala do pré parto. A bolsa estoura. Ela diz que o bebê já está a caminho, e tem um pouco de mecônio do líquido amniótico, mas que é possível tentar o parto normal. Meu coração acelera, após a bolsa estourar as dores da contração aumentam, começo a chorar na emergência dizendo que não vou conseguir que está doendo muito, que não sei se serei capaz. Davi tenta me acalmar, chega a médica da emergência pede para eu ficar calma e me ajuda a fazer alguns exercícios circulares e de apoio na cama para os momentos da contração.

Chego na sala de pré parto. 8 de dilatação. Caminha. Contração. Dor. Chuveiro. Contração. Bola. Contração. Chega um momento que as pernas começam a ficar fracas, não consigo mais ficar em pé. As contrações vêm com tudo. Entro na etapa de analgesia, mas o anestesista está tendo dificuldades para fazer o procedimento, pois meu corpo fica todo contraído. Não consigo administrar a dor no corpo. As médicas e o anestesista me auxiliam sobre como fazer força e não desperdiçar energia. Só gritar não significa que estou ajudando o bebê no trajeto. Davi fica do lado segurando minha mão e falando palavras de apoio. Começo a respirar, rezar, tentar me concentrar. Analgesia chega, as dores aliviam um pouco. Ainda sinto minhas pernas e uma forte pressão no cóccix. É a cria chegando. Uma contração: “Faz força como se fosse para fazer cocô”. Segunda contração: Força! Respiro e deixo meu corpo ir.

São 11:56. Nasceu. É uma menina. É Sofia. O choro demora um pouco e vem um leve “unhe”. Colocam ela no meu colo. Um olhinho aberto e outro fechado. Ela fica quietinha perto do peito, lambendo o bico. Eu choro. Davi chora. Sofia chora. Projeto o olhinho dela por conta da luz.

Estamos sem celular, sem câmera, sem nada. O anestesista tira as fotos para a gente e depois envia pelo whatsapp.

Sofia chegou com 48 cm e 3,585kg em um feriadão de Páscoa. Nem eu e nem ela tínhamos roupa para vestir após o parto. Mas tínhamos muito amor e carinho para nos manter: eu, Sofia e Davi.

Os dias têm sido cansativos, com pouco sono, muitas mamadas, cagadas e choros. Também bate uma tristeza. Chorei achando que não dou conta, mesmo tendo o Davi e a minha mãe juntos. Tem sido também uma gostosura. A gente se vê fazendo um monte se babaquice. Também dá medo, muito medo de ver um serzinho desse depender exclusivamente de você. Tem sido uma experiência completamente diferente. Noites não dormidas. Mas quando Sofia abre um sorrisinho ou uma cara emburrada, até esqueço [esquecemos] o que é sono.




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