29.12.20

Chegadas e despedias, ou, quem sabe, só um 'até logo'


Amadureço um relato escrito em 2017, especificamente no dia 12 de fevereiro. Às vezes as coisas que escrevemos vão e vem na nossa cabeça, acho que ficam no subconsciente adormecidas, esperando o momento de serem acordadas e vistas sob um outro ponto de vista. Este ano vem mostrando, com muita dureza, a efemeridade da vida. 

Costumo (ou costumava) escrever mensagens a serem lidas nos velórios para pessoas que para mim são queridas. Além de ser algo que para mim me tonar mais próxima da pessoa que está deixando essa dimensão,  penso também ser um meio de tornarmos esses momentos importantes,  não tão protocolares. E ao reler este pequeno texto me dei conta de que ele foi o último que escrevi para estas ocasiões, não porque não fui mais a velórios (fui, e a vários), mas talvez porque foi o último que tenha me sensibilizado (até o momento) para isso.

A pessoa descrita a seguir chama-se Carlos. Ele foi/é meu primo de primeiro grau. Sobrinho do meu pai, mas, praticamente com a mesma idade que ele, havia somente uma diferença de quatro anos entre eles. Enquanto passada por diferentes fases da vida, Carlos estava presente também. Ele tinha um jeito inusitado de viver. E retomei este relato, pois em um ano que se fala tanto em mortes e no risco de mortes, Carlos que também acompanhou diversos enterros comigo, conhecia o meu "dom" de falas nos enterros e foi a única pessoa (até o momento) que tinha me pedido para escrever um relato póstumo para ele. Vamos ao relato.

"Há muitos anos o Carlos era uma pessoa que já me pedia, antes de morrer, que escrevesse algo para ele a ser lido no dia da sua morte. Sim, algo meio louco, mas o que se esperar do Maluco se não coisas loucas. Então, há muito tempo, volta e meia, o meu subconsciente trazia essa lembrança: "tem que escrever algo para o Carlos quando ele morrer". Diversas vezes ele esteve para deixar o lado de cá e minha cabeça previamente focava no que escrever. Agora, quando a gente menos espera, acontece, e ele se vai... e a metáfora da vida como um sopro torna-se bem real. Por mais estranho que fosse esse pedido dele, por outro lado, mostra que para ele, a finitude da vida era bem clara e o fato de que precisamos pensar e falar disso antes do fim concretamente chegar. Nesse sentido, é como se ele mesmo estivesse preparando essa memória póstuma.

Então, o que falar sobre o Carlos? Flamenguista doente era uma de suas principais características e "ai" daquelas crianças que quando pequenas dissessem que eram outro time para ele. Acho que ele é daquelas pessoas que não tem meio termo, ou as pessoas gostam ou não gostam. Sempre aparecia com pelo menos dois celulares diferentes a cada mês e saber com qual número conseguir falar com ele era sempre uma aventura (o próprio não sabia o próprio número). Com todo o seu jeito irreverente e criativo, termos como "dromedário", "alavanca", "barata", "tolerância zero", "penosa", entre outros, são palavras que ao escutarmos não serão mais as mesmas.

Como toda pessoa humana, errou e errou, fez besteira, mas, também acertou. Fazia diversos planos e tinha a capacidade de se enrolar em todos. Sua coleção de carros velhos, diversos cachorros e o seu fogão superpotente movido a álcool são coisas que ficam na lembrança. Como também as homéricas broncas que ele levava do meu pai Arlim, um mix de tio-amigo-pai.

"Eu vou ficar, ficar com certeza, maluco beleza". Carlos era um maluco por escolha. Para quem era próximo e tentava ajudá-lo, fica um estado de vazio e de tristeza. Pensar no Carlos é também pensar em Tia Néia e Tio Dário e, talvez, desenhar na cabeça a imagem de que eles o vieram buscar. De que eles também estão aqui neste momento para levá-lo para outro lar.

Carlos Maluco Luiz Mello Travassos, despedidas rubronegras. Vá com Deus. Um dia a gente volta a se reencontrar. Com carinho sua prima, tios, filhos, filha, parentes e amigos.”


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