29.12.20

Chegadas e despedias, ou, quem sabe, só um 'até logo'


Amadureço um relato escrito em 2017, especificamente no dia 12 de fevereiro. Às vezes as coisas que escrevemos vão e vem na nossa cabeça, acho que ficam no subconsciente adormecidas, esperando o momento de serem acordadas e vistas sob um outro ponto de vista. Este ano vem mostrando, com muita dureza, a efemeridade da vida. 

Costumo (ou costumava) escrever mensagens a serem lidas nos velórios para pessoas que para mim são queridas. Além de ser algo que para mim me tonar mais próxima da pessoa que está deixando essa dimensão,  penso também ser um meio de tornarmos esses momentos importantes,  não tão protocolares. E ao reler este pequeno texto me dei conta de que ele foi o último que escrevi para estas ocasiões, não porque não fui mais a velórios (fui, e a vários), mas talvez porque foi o último que tenha me sensibilizado (até o momento) para isso.

A pessoa descrita a seguir chama-se Carlos. Ele foi/é meu primo de primeiro grau. Sobrinho do meu pai, mas, praticamente com a mesma idade que ele, havia somente uma diferença de quatro anos entre eles. Enquanto passada por diferentes fases da vida, Carlos estava presente também. Ele tinha um jeito inusitado de viver. E retomei este relato, pois em um ano que se fala tanto em mortes e no risco de mortes, Carlos que também acompanhou diversos enterros comigo, conhecia o meu "dom" de falas nos enterros e foi a única pessoa (até o momento) que tinha me pedido para escrever um relato póstumo para ele. Vamos ao relato.

"Há muitos anos o Carlos era uma pessoa que já me pedia, antes de morrer, que escrevesse algo para ele a ser lido no dia da sua morte. Sim, algo meio louco, mas o que se esperar do Maluco se não coisas loucas. Então, há muito tempo, volta e meia, o meu subconsciente trazia essa lembrança: "tem que escrever algo para o Carlos quando ele morrer". Diversas vezes ele esteve para deixar o lado de cá e minha cabeça previamente focava no que escrever. Agora, quando a gente menos espera, acontece, e ele se vai... e a metáfora da vida como um sopro torna-se bem real. Por mais estranho que fosse esse pedido dele, por outro lado, mostra que para ele, a finitude da vida era bem clara e o fato de que precisamos pensar e falar disso antes do fim concretamente chegar. Nesse sentido, é como se ele mesmo estivesse preparando essa memória póstuma.

Então, o que falar sobre o Carlos? Flamenguista doente era uma de suas principais características e "ai" daquelas crianças que quando pequenas dissessem que eram outro time para ele. Acho que ele é daquelas pessoas que não tem meio termo, ou as pessoas gostam ou não gostam. Sempre aparecia com pelo menos dois celulares diferentes a cada mês e saber com qual número conseguir falar com ele era sempre uma aventura (o próprio não sabia o próprio número). Com todo o seu jeito irreverente e criativo, termos como "dromedário", "alavanca", "barata", "tolerância zero", "penosa", entre outros, são palavras que ao escutarmos não serão mais as mesmas.

Como toda pessoa humana, errou e errou, fez besteira, mas, também acertou. Fazia diversos planos e tinha a capacidade de se enrolar em todos. Sua coleção de carros velhos, diversos cachorros e o seu fogão superpotente movido a álcool são coisas que ficam na lembrança. Como também as homéricas broncas que ele levava do meu pai Arlim, um mix de tio-amigo-pai.

"Eu vou ficar, ficar com certeza, maluco beleza". Carlos era um maluco por escolha. Para quem era próximo e tentava ajudá-lo, fica um estado de vazio e de tristeza. Pensar no Carlos é também pensar em Tia Néia e Tio Dário e, talvez, desenhar na cabeça a imagem de que eles o vieram buscar. De que eles também estão aqui neste momento para levá-lo para outro lar.

Carlos Maluco Luiz Mello Travassos, despedidas rubronegras. Vá com Deus. Um dia a gente volta a se reencontrar. Com carinho sua prima, tios, filhos, filha, parentes e amigos.”


29.4.18

Relato de Parto - Bianca e Davi



OBS 1.: No início do texto menciono “o bebê” ou “a cria”, pois nós optamos por não saber o sexo durante a gestação. Ninguém sabia. Nem a obstetra. Somente as médicas que fizeram as ultras.

São 5h da manhã do dia 29 de março, estou com 38 semanas e 5 dias, levanto cansada e sonolenta. Davi estava terminando de se arrumar para ir trabalhar, mas, antes, iria me deixar na minha mãe para eu terminar de arrumar as coisas. Trabalhei até às 17h do dia anterior, mas ainda na cama tinha sentido uma pequena cólica no pé da barriga. Até aí, tudo bem, dores no final da gestação é comum, afinal a barriga pesa. No banheiro, ainda de olhos fechados, fazendo xixi, escuto:

- Bia, acho que o seu tampão saiu, tem sangue na cama – falou Davi.

Rapidamente pego um pedaço de papel higiênico para me limpar e, realmente, estava sangrando. Penso, como ele, que deve ser o tampão, ainda tinha aspecto mais de início de menstruação e pouco gelatinoso. Continuamos os afazeres matinais, ele se arrumando e eu também, afinal, pelos relatos que li ainda pode demorar alguns dias para o trabalho de parto, só o tampão sair não significa que já vai nascer. Mas, resolvemos monitorar para ver no que ia dar. Tomo um banho, me visto, mas começo a sentir novamente as dores no pé da barriga, vou caminhando pela casa, uso a bola de pilates. Davi avalia que é melhor chegar mais tarde no trabalho e começa a monitorar o tempo das “tais dores” que avaliamos que já poderiam ser as contrações. Ainda estavam desreguladas, eram rápidas, e ainda não tinham padrão. Vontade de fazer xixi toda hora. Coloco bolsa de água quente para aliviar as dores, ele faz um pouco de massagem, resolvo deitar, escutando um pouco de música e tirar uma soneca para ver se melhora. A partir daí as contrações já duram cerca de 30 segundos a 1 minuto, vindo a cada 7 minutos, às vezes 5. Ele pega um material de um curso que fizemos que indica que isso já pode significar trabalho de parto. Ele não vai mais para o trabalho. Sendo assim, resolvemos que é melhor eu me alimentar e ver se isso continua, então ele foi na padaria comprar algo para tomarmos café. Já eram perto de 7h e resolvemos que, se após as 7h, esse quadro se mantivesse, ligaríamos para a obstetra.

No tempo que ele foi na padaria, permaneci deitada escutando música e tentando relaxar, mas a dor começa a aumentar e resolvo ir para o chuveiro ficar debaixo da água quente. As dores vão ficando mais fortes. Quando ele chega, já passa das 7h e resolvemos mandar mensagem e ligar para a obstetra:

“Bom dia, Consuelo

É o Davi. Marido da Bianca. A Bianca acordou hoje por volta das 05:00 e notamos um pequeno sangramento com pequenos coágulos.  Depois disso ela começou a ter dores/contrações no "pé" da barriga, irradiando pra baixo, com inicios e durações bem intermitentes.O sangramento é bem parecido com início de menstruação e continua. Não identificamos nada gelatinoso nele.

Quando puder nos dê um retorno.

Abs”

Enquanto estou no chuveiro, ele liga, explica para ela a situação e ela aconselha a irmos para a emergência para avaliar se já há dilatação e como está o bebê. Saio do banho, me arrumo, pego as coisas que estavam em casa, tomo café, preparo um lanche para levar. Na nossa avaliação, eu iria para a emergência e eles me mandariam de volta para casa, pois não deveria ter dilatação para a internação. Saímos de casa um pouco antes das 9h, era uma quinta-feira (quinta-feira santa pré-feriadão de páscoa), engarrafamento enorme, e ainda passaríamos na minha mãe para deixar o cachorro e pegar as coisas do bebê. Durante o trajeto as contrações que estavam desreguladas começam a ficar ritmadas de 5 em 5 minutos. Não aguento ficar sentada e deito o banco do carro. As dores vêm de um modo que começo a gritar para aliviar um pouco. Chegando na minha mãe resolvemos que eu não subiria para pegar as coisas do bebê. As dores estavam fortes, e tinha cerca de 40 degraus para subir. Dado o engarrafamento era melhor ir direto para o hospital, sem nada do bebê e quase nada meu.

OBS 2.: Ninguém sabia que estava indo para a emergência, resolvemos não alardear, pois poderia ser alarme falso.

A rua que dava acesso ao hospital estava tendo uma feira-livre, sendo assim, o caminho aumenta e as contrações também. Entro na emergência e Davi vai estacionar o carro. Fico andando, pois é melhor que ficar sentada. Passo pela triagem, em seguida, vou direto para a ginecologia. São 10h, na ginecologia explicamos a situação, me deito e a médica faz o toque para avaliar.

- 1, 2, 3, 4, 5 e 6. Seis centímetros de dilatação. Arrasou. Vamos internar. Essa criança vai nascer rapidinho. Você está ótima.

Eu repito dentro de mim. Internar? Seis centímetros? Já? A bolsa ainda não tinha estourado.  Nesse meio tempo já tinha falado umas três vezes a data da minha última menstruação. A cada profissional de saúde que me parava tinha que repetir as mesmas coisas sempre. Davi pergunta se liga para alguém, eu peço que não, ele tem um monte de coisas para preencher e eu precisava também do apoio dele. Se fizéssemos a primeira ligação seria uma cascata sem fim de ligações.

A médica da emergência liga para a minha obstetra, explica a situação e ela vem a caminho. As dores vêm mais intensas, coloco o aparelho para monitorar o coração do bebê, fico em pé, pois é difícil permanecer deitada. Minha obstetra chega, 7 centímetros de dilatação. Ainda estou na emergência (do Pasteur) aguardando a sala do pré parto. A bolsa estoura. Ela diz que o bebê já está a caminho, e tem um pouco de mecônio do líquido amniótico, mas que é possível tentar o parto normal. Meu coração acelera, após a bolsa estourar as dores da contração aumentam, começo a chorar na emergência dizendo que não vou conseguir que está doendo muito, que não sei se serei capaz. Davi tenta me acalmar, chega a médica da emergência pede para eu ficar calma e me ajuda a fazer alguns exercícios circulares e de apoio na cama para os momentos da contração.

Chego na sala de pré parto. 8 de dilatação. Caminha. Contração. Dor. Chuveiro. Contração. Bola. Contração. Chega um momento que as pernas começam a ficar fracas, não consigo mais ficar em pé. As contrações vêm com tudo. Entro na etapa de analgesia, mas o anestesista está tendo dificuldades para fazer o procedimento, pois meu corpo fica todo contraído. Não consigo administrar a dor no corpo. As médicas e o anestesista me auxiliam sobre como fazer força e não desperdiçar energia. Só gritar não significa que estou ajudando o bebê no trajeto. Davi fica do lado segurando minha mão e falando palavras de apoio. Começo a respirar, rezar, tentar me concentrar. Analgesia chega, as dores aliviam um pouco. Ainda sinto minhas pernas e uma forte pressão no cóccix. É a cria chegando. Uma contração: “Faz força como se fosse para fazer cocô”. Segunda contração: Força! Respiro e deixo meu corpo ir.

São 11:56. Nasceu. É uma menina. É Sofia. O choro demora um pouco e vem um leve “unhe”. Colocam ela no meu colo. Um olhinho aberto e outro fechado. Ela fica quietinha perto do peito, lambendo o bico. Eu choro. Davi chora. Sofia chora. Projeto o olhinho dela por conta da luz.

Estamos sem celular, sem câmera, sem nada. O anestesista tira as fotos para a gente e depois envia pelo whatsapp.

Sofia chegou com 48 cm e 3,585kg em um feriadão de Páscoa. Nem eu e nem ela tínhamos roupa para vestir após o parto. Mas tínhamos muito amor e carinho para nos manter: eu, Sofia e Davi.

Os dias têm sido cansativos, com pouco sono, muitas mamadas, cagadas e choros. Também bate uma tristeza. Chorei achando que não dou conta, mesmo tendo o Davi e a minha mãe juntos. Tem sido também uma gostosura. A gente se vê fazendo um monte se babaquice. Também dá medo, muito medo de ver um serzinho desse depender exclusivamente de você. Tem sido uma experiência completamente diferente. Noites não dormidas. Mas quando Sofia abre um sorrisinho ou uma cara emburrada, até esqueço [esquecemos] o que é sono.




21.5.17


Leituras

Indo no fundo da memória para lembrar de livros que me marcaram:

  • Felicidade Clandestina (Clarice Lispector)
  • O monge e o executivo 
  • Memórias póstumas de Brás Cubas
  • As veias abertas da América Latina
  • Sete minutos depois da meia noite (Um monstro chama)

3.10.16

Anita

E quando a vi a primeira vez, já nem me lembro mais quantos anos eu tinha. Só lembro que estava brincando e eis que vem subindo a escada uma mulher de óculos e com os cabelos cacheados longos bem enegrecidos. E eis que foi chegado o dia que não precisava falar “Oi Vó” somente pelas cartas do correio ou então através de uma ligação do orelhão da esquina que tinha que ser o mais rápido possível para não ir embora todos os créditos do cartão telefônico.

Eu estava do lado do Rio chamado Janeiro e, ela, do Rio chamado Grande do Norte. As visitas ao vivo e a cores tiveram suas limitações, mas a presença se fazia presente.

Claro que a gente sabe que tem um momento que o corpo já não consegue mais prosseguir, que a alma quer descansar e que a finitude humana chega ao fim. Os dias vão passando e, lá dentro do meu coração, eu escutava: “ei, essa é a última vez que a gente se vê desse lado daqui”... Porém, mesmo sabendo que tá para acontecer... quando acontece é uma angustia e dor grande que invade a alma e faz o coração apertar.

“Está tudo bem”, outra voz lá dentro do coração diz. Onde estiver, ela está feliz. Viveu e amou como a mulher forte que era. Filh@s, net@s, bisnet@s ficam do lado de cá, mas do lado de lá, uma grande festa com muita castanha, sequilho, raiva, solda, guaraná e chocolate a espera e com a presença de seus outr@s filh@s que por lá estão.


Por aqui a gente prossegue com a vida: “Vai ficar tudo bem – Gonna be  all rigth”.

7.9.15

Conhecendo melhor as Comunidades Tradicionais...

E aqui estou em Paraty, acompanhando duas residentes do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde da Família da ENSP. Conhecer melhor a realidade de saúde de outro município e, mais ainda, conhecer melhor as formas de viver e ter, ou não, saúde em territórios de comunidades tradicionais.

Conhecendo as unidades e serviços de saúde, caminhando pelo centro histórico da cidade, conversando com moradores... Adentrando um pouco mais uma cidade que apesar dos seus um pouco mais de 37 mil habitantes (oficiais), é o ano inteiro cercada por diversos migrantes e turistas que vem buscar em seu litoral os mistérios e prazeres da Baía da Ilha Grande.

Longe de tentar ser um relato preciso das atividades realizadas, traz mais para reflexão e síntese momentos sob os quais parei para pensar mais um pouco...


  • Gil da Ponta Negra
E pelo desenho esse usuário do CAPS de Paraty vai se expressando e se inventando, nos fazendo lembrar de histórias populares que ficaram lá no fundo da memória guardadas: mula sem cabeça, boi-ta-tá, saci pererê e os fantasmas que passeiam a noite pelas paredes e só os mais antigos viam. 

Ao encontro do outro e ouvir o outro precisamos mais.


  • Acidente de ônibus em Paraty
E na estrada avistamos uma ambulância, e outra, e outra, e outra... E sem entender muito bem o que tinha acontecido, já tínhamos ficado assustadas, quando soubemos do fato em si, ficamos bem mais abaladas. O fato foi: um ônibus lotado fazendo o trajeto Paraty-Trindade, em uma descida, perdeu o freio e derrapou 50 metros. Esse episódio levou a óbito 15 pessoas e um pouco mais de 40 estão feridas, internadas nos hospitais de Angra, Paraty e Ubatuba.

Além de abalar concretamente os serviços de saúde e querer uma ação que se dê em tempo rápido, abala também a vida cotidiana da cidade e dos moradores e migrantes que nela estão. Três dias oficiais de luto. 

O episódio também traz para a discussão um tema que no cotidiano já estava preocupante: "Esses ônibus são horríveis, não tem freio, cinto e vivem lotados". Entendendo a saúde em seu conceito amplo, será que é preciso morrer gente para que as coisas sejam revistas e encaminhadas? 

27.8.15

Enfim... "Mestra"!

“Vamos começar, colocando um ponto final... Pelo menos já é um sinal, de que tudo na vida tem fim”. (Paulinho Moska)

E foi assim que no início do mês entreguei minha dissertação de mestrado para a banca, colocando um ponto final, mesmo, internamente, ainda tendo muitas colocações, pontos e ideias para desenvolver (inclusive dúvidas). Hoje, defendi minha dissertação de mestrado em vigilância em saúde. Tendo agora o título de “Mestre em Saúde Pública”, mas, para ser mestre, ou mestra, mesmo, sei que muito ainda tenho que aprender.

O que me vem na mente agora são as idas e vindas para Guapimirim para ter as aulas do mestrado. A companhia de amigos de sala fantásticos e aulas com professores comprometidos. Obrigada por todo mundo que me apoiou e compreendeu o meu isolamente/quarentena necessário para terminar essa etapa da vida.

No decorrer da minha caminhada dentro do campo da Saúde Coletiva, sempre me inquietou a necessidade de desenvolver processos de trabalho e ideias que fortalecessem os serviços de saúde e, em especial, o Sistema Único de Saúde. Mais do que uma inquietação profissional, acho que também está envolvida uma inquietação pessoal de usuária do SUS e de realmente querer defendê-lo.

Nessa incansável mania de tentar abraçar o mundo com as pernas e de fazer mil coisas ao mesmo tempo, muitas ideias e inquietações ficaram guardadas. Porém, é preciso colocar um ponto, não final exatamente, mas, quem sabe, continuativo... para, em outros momentos da vida, dá seguimento ao que ficou “de fora” ou então “não tão bem explicado”.

É isso!

“De tudo, ficaram três coisas:
A certeza de que estamos sempre começando...
A certeza de que é preciso continuar...
A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar...
Portanto, devemos:
Fazer da interrupção um caminho novo...
Da queda, um passo de dança...
Do medo, uma escada...
Do sonho, uma ponte...
Da procura, um encontro.”
(Fernando Pessoa)


22.6.13

Reflexão sobre o posicionamento da Presidenta Dilma de 21/06/2013

Acabei de ouvir o pronunciamento da Dilma. Galera, acho importante escutarmos o que ela tem a dizer e não focarmos no que gostaríamos que ela falasse ou prometesse, pois, se agirmos dessa forma, estaremos praticando audição seletiva e o turbilhão de críticas será maior que o de cobranças.

Tenho muitas críticas pessoais ao processo como vem sendo tratada a questão da saúde no Brasil, porém aqui só vou realçar itens importantes na fala da presidenta e que acredito que devamos cobrar. Sei que muitos itens ainda estão longe dos nossos ideias, mas precisamos começar de algum lugar se não poderemos nos tornar somente um movimento reclamão. Lembro que devemos reclamar e reivindicar, mas não só!

A primeira coisa a realçar foi o apoio dela às manifestações. Reforço o que já falei com alguns amigos, construir um movimento pela violência não é o caminho, principalmente quando a violência incide fortemente na depredação de bens públicos, bens este que eu, você, nossos familiares, todos usam.

Foi citada pela presidenta a revogação no aumento das passagens! Muito bem, mas que esse dinheiro não seja retirado dos demais segmentos, como a saúde e a educação.

O que ela disse e acredito que devemos cobrar, não só da Dilma, mas também do SENADO!

- Ampliar as estratégias de combate à corrupção e de desvio dos recursos públicos;

- Elaboração de um plano nacional de mobilidade urbana, privilegiando o transporte coletivo;

- Destinação de 100% dos royalties do petróleo para a educação;

- Trazer milhares de médicos do exterior para ampliar o atendimento do SUS;
- Criar instituições públicas mais transparentes;

- Viabilizar uma reforma política que inclua a participação popular;

- Ampliar a lei de acesso à informação a todos os poderes da República, fiscalizando o uso correto do dinheiro público.

- Cobrar que o dinheiro que foi utilizado para financiar os estádios da Copa retorne.

Dessa vez não quero me estender, mas só terminar com algumas críticas que penso serem importantes. Ao final do pronunciamento, a presidenta reforçou que saúde e educação são prioridades, portanto que sejam tratadas como tal, importar médicos estrangeiros pode ser uma solução que está surgindo, porém não resolverá os graves problemas do nosso Sistema Único de Saúde, mesmo com a importação de médicos, continuaremos com um sistema de saúde subfinanciado e com graves problemas de gestão. O médico sozinho não será o profissional que vai mudar a realidade do sistema, as condições de trabalho são ruins para todos. Não quero ficar comprando brigas corporativas, quero apostar em soluções que modifiquem a realidade da saúde em nosso país e, no momento, precisamos de mais médicos SIM! Porém, isso não pode ser encarado como um plano de organização da saúde em nosso país.

Por fim, vale destacar que vivemos em um federalismo com três unidades da federação autônomas. Tirar o presidente não significa a solução dos problemas do país. Tirar para colocar quem?! Vamos chamar eleições representativas e democráticas novamente?! O povo participará dessa escolha?! Devemos entender como funciona o nosso modelo de organização política antes de ficarmos repetindo um discurso que me aprece vir mais da alta burguesia. 

21.6.13

Relato sobre as Manifestações no Rio de Janeiro

Ao chegar ontem a noite em casa, feliz, perplexa e preocupada com os amigos que ainda estavam nas ruas do centro do Rio, fiquei bastante pensativa e me questionando se externalizava ou não minhas emoções... Por fim, resolvi escrever e acabei escrevendo muito.

Primeiramente queria reforçar que pensei que nunca iria vivenciar um movimento popular com tanta força. Pensei que nunca fosse ver diferentes movimentos caminhando juntos em um movimento com causas meio embaçadas e plurais. Movimentos que mostraram ter em comum a insatisfação com o descaso como vem sendo tratada a coisa pública. Movimentos que encontraram nos R$ 0,20, como diriam os sociólogos, um fato que provocou indignação, levando a uma cascata de informações e pedidos. Sem dúvida, R$ 0,20 se tornou um símbolo das demais injustiças sociais.



Na verdade, as pessoas já estão insatisfeitas há muito tempo. Apesar dos distintos grupos construírem suas pautas separadamente, nós, enquanto cidadãos, dialogamos sobre tudo isso, o tempo todo, seja pela internet, nos ônibus, no metro e etc. Ontem, 20/06, vimos todas essas reivindicações juntas e misturadas. Infelizmente, junto a este movimento, também estava presente o movimento de vandalismo que, como não é novidade, sempre se aproveita dessas situações para poder marcar presença e ganhar o gosto da mídia. Mais infelizmente ainda, temos uma policia que é treinada para “dar porrada” em bandido e que, em qualquer sinal de vandalismo, cai pra cima de todos, provocando um caos inicial que, consequentemente, leva a um caos coletivo (saques, assaltos, depredações...). Destaco que por volta das 16h eu estava passando pela cidade nova a caminho do Largo de São Francisco para encontrar amigos e organizar as pautas da saúde a serem defendidas na manifestação, o cerco policial que se preparava e que blindava o prédio da prefeitura era crescente. E nesse crescente embate com a polícia, uma pergunta que vem ecoando é: Como está caminhando a segurança pública para as grandes manifestações?... Parece que vem caminhado aos moldes de períodos antigos...

Durante a passeata, consegui chegar até a altura do Hospital São Francisco, próximo a Nova CEDAE, sem nenhuma tentativa de violência generalizada. Nesse mesmo momento, o pessoal da linha de frente chegou à prefeitura e iniciou-se a confusão. Fico me questionando como que um movimento que caminhou tanto, sem nenhuma violência generalizada, ao chegar à porta da prefeitura e encontrar a polícia, de repente se perde e, iniciam-se tiros, bombas e correria. Certamente ocorreu ali uma tentativa de dispersar o movimento. Incitar uma violência assim que o primeiro grupo chegou prefeitura pra mim foi uma forma clara de quebrar o movimento e dispersar a multidão. Ressalto que no decorrer da marcha, antes de se chegar à prefeitura, atos de vandalismo eram reprimidos pelo público. Como já dizia, se gentileza gera gentileza, violência gera violência.

Acho que todo movimento que se propõem a ser revolucionário quando ocorre, as pessoas realmente devem se sentir perdidas, pensando o que estão fazendo, se devem ou não participar das mobilizações, inclusive, me incluo nesses momentos de crises interiores... Devemos lembrar que os livros de história já nos mostram as histórias dos movimentos organizadas, analisadas e cronologicamente feitas. Somos treinados, desde o jardim de infância, a analisar, categorizar e esquematizar, porém, quando nos vemos no olho do furacão e tão próximo do objeto de análise fica muito difícil fazer isso. Para os meus colegas da Saúde Coletiva, fica muito difícil colocar isso em uma tabela 2x2, porque a vida não é 2x2!

Nos movimentos tradicionais que estudamos víamos rostos puxando o movimento, digamos líderes carismáticos tradicionais. Pelo que vivenciei, percebi que não temos um líder carismático único, mas isso não significa que não tenhamos uma liderança, temos, digamos, uma liderança coletiva que precisa ser melhor estudada. Além disso, não é porque não temos um líder único que isso signifique que não estejamos pautando uma organização. Todos os segmentos presentes pensaram, minimamente, em uma bandeira para levantar. Para todos os lados que olhava, no decorrer da caminhada, via diferentes reivindicações. Pode até ser caracterizado como um movimento sem liderança concreta única, mas não penso que sem propostas, o que mais vi e ouvi foram propostas, não novas, mas antigas. Deve-se observar também que não se trata de uma criação brasileira, manifestações com esse estilo, estão acontecendo em várias partes do mundo.

Antes mesmo de postar esse texto olhei o que alguns colegas escreveram e teve um tipo de fala que me irritou bastante, principalmente aqueles que contabilizam o movimento: 50% era isso, 30% aquilo, 20% acolá... Provavelmente fizeram um inquérito na velocidade da luz para tal cálculo. E o melhor é que tais pessoas se enquadram na porcentagem da minoria pensante que é a luz da LUZ, tendo uma puta capacidade de se afastar do objeto e fazer uma análise do estado da arte. Sinceramente, não consigo me incluir nessa minoria da Luz, primeiro porque não sei nem direito por onde começar uma análise para fatos que vem acontecendo, segundo porque os meus discursos se confundem na minha própria mente, dessa forma, prefiro me colocar nos meus simples “achismos” dos fatos.

Outro ponto que não se pode deixar de mencionar é a utilização do Facebook e demais redes sociais para a mobilização e construção de uma agenda, mesmo que difusa. Com certeza a internet teve uma capacidade muito grande de aglutinar diferentes grupos, não só no Rio, ou no Brasil, mas também no mundo, com pequenas mobilizações de brasileiros residentes em outros países que concordam com a causa, melhor, com as causas. E, nessa onda da internet, também são crescentes as postagens das pessoas falando daquelas pessoas que só querem tirar fotos na manifestação para publicar em seu Facebook e Instangran. Sinceramente, também acho que é uma parada bizarra, mas é o que vem junto com o bolo da facilidade da comunicação virtual, as pessoas querem externalizar na internet a sua participação, seja para postar fotos legais com seu novo look, ou então sua opinião sobre os fatos. As pessoas querem ser vistas! Se existem aquelas que fazem seus looks para postar no facebook, ora bolas, que também tenham aquelas que façam suas análises e opinões políticas para postar, ao invés de só ficar falando daquelas que postam fotos new styles.

Outra questão: partidários x apartidários. O que começou com uma bandeira de neutralidade nas diversas manifestações, vem culminando com uma briga e pancadaria crescente entre esses dois segmentos e, melhor, a mídia percebendo tal racha, endossa mais ainda essa situação em suas reportagens. Não vamos deixar que os discursos se minimizem entre a briga dos partidários x apartidários. Parece que a mídia focou tanto nesse fato para que o público endossasse a tese de que partidos não podem se expressar. E, antes que pensem que estou defendendo alguma causa especial, não sou de partido nenhum, nem A, nem B, só acho que se realmente queremos caminhar para uma democracia mais forte, devemos saber viver e trabalhar com as possibilidades de representação das diversas entidades, partidárias ou não. Afinal, já está claro que o movimento não tem uma identidade partidária, mas sim uma identidade civil e social.

Por fim, só queria frisar que foi muito emocionante o povo na rua. Contudo, é preciso avançar em nossas reflexões, agora é preciso que os diferentes grupos se falem, dialoguem. Estar presente nas ruas, mostrando as diferentes reivindicações e bandeiras de um povo é muito importante, mas não suficiente. Temos que caminhar para o desenvolvimento do país, mas também para o da representação democrática e do povo. Como disse Cristovam Buarque, uma das maiores surpresas foi as autoridades se surpreenderem com as manifestações. Se surpreenderem com a capacidade das pessoas, em um cenário descrente de uma briga conjunta.


Em coletiva no início dessa tarde, o governador do RJ, Sérgio Cabral, disse que os atos de vandalismo são minoritários no movimento e que estão prejudicando o debate. Retomo sua frase e retorno para ele. Os atos de vandalismo estão prejudicando o debate? Ok, mas, Governador, você mesmo disse que o vandalismo é minoritário, então, vamos parar de dar holofotes e manchetes para os vândalos e vamos iniciar o debate. Vamos lá, porque a pauta é extensa e as mudanças necessárias. Governador, queremos debater ideias, mas também queremos AÇÕES! 



30.10.12

"Porque a vida segue. Mas o que foi bonito fica com toda a força. Mesmo que a gente tente apagar com outras coisas bonitas ou leves, certos momentos nem o tempo apaga. E a gente lembra. E já não dói mais. Mas dá saudade. Uma saudade que faz os olhos brilharem por alguns segundos e um sorriso escapar volta e meia, quando a cabeça insiste em trazer a tona, o que o coração vive tentando deixar pra trás." -
 
Caio Fernando Abreu.